Duas semanas de silêncio depois de uma proposta enviada com urgência. O contato que parecia perto do fechamento simplesmente parou de responder mensagem, e-mail, ligação. A reação mais comum é achar que a concorrência ganhou, ou que o preço assustou. Na maioria dos casos de venda B2B complexa, a explicação real é mais simples e mais chata de aceitar: aquele contato nunca teve autoridade sozinho pra fechar, e não conseguiu, ou não quis, carregar a venda pro resto da empresa dele.
O artigo sobre ICP orientado por dados responde qual é a empresa certa pra vender. O artigo sobre dado de intenção de compra responde quando essa empresa está pronta pra comprar. Nenhum dos dois responde a pergunta que mais derruba negócio B2B no meio do funil: quem, dentro dessa empresa, precisa dizer sim antes da venda sair do papel. E a resposta quase nunca é uma pessoa só.
# O sintoma: o negócio esfria sem motivo aparente
No CRM, a etapa diz "negociação" há três semanas. A última atividade registrada é uma ligação de 20 minutos, tom positivo, próximo passo combinado. Depois disso, nada. O vendedor manda mensagem, liga, tenta outro canal. Silêncio. Marca como "cliente sumiu" e segue pro próximo lead.
O problema é que raramente o cliente "sumiu" de verdade. O que geralmente acontece é que a pessoa que conduzia a conversa até ali não tinha, sozinha, o poder de aprovar a compra, e travou tentando convencer o resto da empresa dela sem o apoio direto do fornecedor. Ou pior: existia alguém no comitê de compras que o vendedor nunca soube que existia, e essa pessoa vetou o negócio numa reunião interna da qual o fornecedor jamais participou.
Isso é o custo de tratar uma venda B2B complexa como se fosse uma conversa entre duas pessoas, quando na prática é uma negociação com um grupo inteiro do outro lado da mesa.
# O que é comitê de compras (e por que ele cresceu)
Comitê de compras (no jargão internacional, buying committee) é o grupo de pessoas que participa, direta ou indiretamente, da decisão de comprar um produto ou serviço dentro de uma empresa. Em venda B2B complexa, a que envolve investimento relevante, mudança de processo ou risco operacional, é raro uma pessoa só decidir sozinha, mesmo quando só uma pessoa conversa com o vendedor.
Esse comitê não é exagero de manual de vendas. A Gartner, uma das referências mais citadas em pesquisa de comportamento de compra B2B, mostra que o grupo de compra de uma solução complexa reúne hoje, em média, entre 6 e 10 pessoas, um número que só cresceu: em 2016 a média era de 6,8. Cada uma dessas pessoas costuma reunir seu próprio conjunto de informações antes de formar opinião, e boa parte delas nunca fala diretamente com o fornecedor.
O tamanho do comitê varia com o porte do negócio: contratos menores tendem a envolver de 2 a 4 pessoas, negócios de porte médio costumam reunir de 5 a 7, e vendas de grande porte, com aprovação jurídica, segurança e compras formal, regularmente passam de 10.
# Os papéis dentro do comitê de compras B2B
Nem todo mundo no comitê tem o mesmo peso, e confundir os papéis é um dos motivos mais comuns de o vendedor investir energia na pessoa errada. Os seis papéis mais comuns:
1. Usuário final. Quem vai usar a solução no dia a dia. Costuma ser o primeiro contato, o mais fácil de engajar, e o que menos poder tem de aprovar sozinho o orçamento.
2. Influenciador técnico. Avalia se a solução funciona na prática: se integra com o que já existe, se atende o requisito operacional, se não cria risco técnico. Pode travar um negócio tecnicamente bom só porque a integração parece arriscada.
3. Aprovador financeiro. Controla o orçamento e o retorno esperado do investimento. Raramente participa das primeiras conversas, mas quase sempre tem poder de veto na reta final.
4. Decisor executivo. A autoridade final, quem alinha a decisão com a estratégia da empresa. Em empresas menores, costuma acumular esse papel com o de aprovador financeiro.
5. Patrocinador interno (o "campeão"). A pessoa que defende a solução dentro da empresa quando o fornecedor não está na sala. Sem alguém nesse papel, mesmo o comitê mais bem mapeado dificilmente aprova a compra.
6. Guardião. Geralmente alguém do time de compras ou suprimentos. Controla o acesso ao resto do comitê e pode atrasar o processo por critério formal, mesmo quando todo o resto já está convencido.
Em empresas menores, uma mesma pessoa acumula mais de um papel, o dono da PME que é, ao mesmo tempo, decisor executivo e aprovador financeiro, por exemplo. Isso reduz o número de pessoas, mas não elimina a lógica: ainda existe mais de um critério sendo avaliado, mesmo que por uma cabeça só.
# O risco de apostar tudo em um contato só
Depender de uma única pessoa do lado do cliente pra conduzir toda a negociação tem nome: no jargão de vendas B2B, chama-se single-threaded deal (negócio de um fio só). É um dos padrões mais estudados de negócio perdido, porque o risco não é hipotético, é mensurável.
Uma análise da UserGems sobre 500 negócios fechados mostrou que negócios com apenas um contato engajado do lado do cliente fecharam em cerca de 5% dos casos. Negócios com cinco ou mais contatos engajados fecharam em cerca de 30% dos casos, uma diferença de 6 vezes na taxa de fechamento, só pela quantidade de pessoas envolvidas do lado do comprador.
A Gong, empresa de inteligência de vendas que analisa conversas comerciais em escala, chegou a um padrão parecido: negócios fechados com sucesso têm, em média, o dobro de contatos do lado do comprador comparados a negócios perdidos, e multithreading (abordar mais de um contato do comitê) aumenta em até 130% a taxa de fechamento em negócios acima de US$50 mil. Mesmo assim, boa parte das oportunidades, 77% segundo a mesma análise, já envolve mais de um contato, o que mostra que o problema nem sempre é falta de acesso ao comitê. É falta de estratégia deliberada pra engajar mais de uma pessoa dele.
# Como mapear o comitê antes de precisar
Mapear o comitê não exige ferramenta cara nem processo burocrático. Exige perguntar, observar e registrar, na ordem certa.
Passo 1: perguntar direto na primeira conversa. "Quem mais, além de você, costuma participar desse tipo de decisão aqui?" é uma pergunta simples que a maioria dos vendedores nunca faz, com medo de parecer que está duvidando da autoridade do contato. O contato raramente se ofende, e a resposta já economiza semanas de negócio parado mais adiante.
Passo 2: olhar o organograma público. O LinkedIn da empresa já mostra, na maioria dos casos, quem ocupa os cargos ligados à área que a solução atende, além do financeiro e do time de compras. Não substitui a pergunta direta, mas ajuda a confirmar quem ainda falta mapear.
Passo 3: observar quem mais interage ao longo do processo. Quem mais abre e-mail em cópia, quem entra numa reunião só pra ouvir, quem pede um documento específico (ficha técnica, análise de custo). Cada um desses sinais aponta um papel diferente do comitê se movimentando, mesmo sem apresentação formal.
Passo 4: registrar cada papel identificado no CRM, não só no e-mail ou na cabeça do vendedor. Um CRM bem configurado guarda o mapa do comitê de cada conta como dado estruturado, quem é o usuário final, quem é o aprovador financeiro, quem ainda falta engajar, em vez de deixar essa informação perdida numa troca de e-mail que some quando o vendedor sai de férias.
# Multithreading na prática: como abordar mais de uma pessoa
Um exemplo ilustrativo de como isso funciona numa venda B2B real, de uma fabricante de equipamentos de refrigeração industrial vendendo pra uma rede regional de supermercados.
O primeiro contato foi o gerente de manutenção de uma das lojas, entusiasmado com a proposta técnica e com a ficha comparativa de consumo de energia. Depois de duas reuniões boas, o negócio parou. O vendedor continuou mandando mensagem só pro gerente de manutenção, achando que ele resolveria o resto sozinho.
Quando o time comercial mapeou o comitê de verdade, apareceram pelo menos mais três papéis que o gerente de manutenção nunca teria conseguido convencer sozinho: o diretor de operações da rede (decisor executivo, precisava enxergar o ganho em todas as lojas, não só numa), o setor financeiro (queria uma análise de custo total de propriedade comparando com o equipamento atual, não só o preço da compra) e o comprador de suprimentos (guardião do processo formal de cotação entre fornecedores).
A partir daí, a abordagem virou multithreading de verdade: ficha técnica detalhada continuou indo pro gerente de manutenção, uma análise de custo total foi montada especificamente pro financeiro, um resumo executivo com o ganho projetado pra rede inteira foi enviado direto pro diretor de operações, e o vendedor passou a alinhar prazo e condição comercial direto com o comprador, sem depender de ninguém repassando informação errada no meio do caminho. Cada etapa desse processo, quem já foi contatado, quem falta, em que estágio cada papel está, ficou registrada nos estágios do funil de vendas, não espalhada em conversa de WhatsApp.
O negócio que estava parado há um mês avançou pra assinatura em três semanas. Não porque o produto mudou. Porque o vendedor parou de apostar tudo numa pessoa só.
# Perguntas frequentes
O que é comitê de compras (buying committee) em vendas B2B?
É o grupo de pessoas dentro de uma empresa que participa, direta ou indiretamente, da decisão de comprar um produto ou serviço complexo. Raramente uma única pessoa aprova sozinha uma compra B2B relevante, o comitê normalmente reúne quem vai usar a solução no dia a dia, quem avalia se ela funciona tecnicamente, quem controla o orçamento e quem dá o aval final. Segundo a Gartner, o comitê de compras de uma solução B2B complexa reúne hoje, em média, entre 6 e 10 pessoas, contra uma média de 6,8 em 2016.
Quais são os papéis dentro de um comitê de compras?
Os papéis mais comuns são: usuário final (quem vai usar a solução no dia a dia), influenciador técnico (avalia se a solução funciona na prática), aprovador financeiro (controla o orçamento e o retorno esperado), decisor executivo (autoridade final, alinha a decisão com a estratégia da empresa), patrocinador interno ou campeão (defende a solução dentro da empresa) e, em alguns casos, um guardião (geralmente do time de compras, controla o acesso e pode atrasar o processo). Uma mesma pessoa pode acumular mais de um papel em empresas menores.
O que é multithreading em vendas B2B?
É a prática de manter relacionamento ativo com mais de uma pessoa do comitê de compras da mesma conta, em vez de depender de um único contato pra conduzir toda a negociação. O oposto, chamado de single-threaded deal (negócio de um fio só), é considerado um dos maiores riscos de um negócio B2B complexo: segundo uma análise da UserGems sobre 500 negócios fechados, negócios com apenas um contato engajado fecharam em cerca de 5% dos casos, contra cerca de 30% quando cinco ou mais pessoas da conta estavam envolvidas.
Como descobrir quem faz parte do comitê de compras de uma conta?
Três fontes já ajudam sem ferramenta cara: perguntar direto ("quem mais, além de você, costuma participar desse tipo de decisão aqui?") já na primeira reunião de descoberta; olhar o organograma público no LinkedIn da empresa, cruzando cargos ligados à área que a solução atende, mais financeiro e compras; e observar quem mais interage ao longo do processo, como quem abre e-mail em cópia ou pede um documento específico. Quanto antes o comitê for mapeado, menor o risco de o negócio andar semanas com um contato só e travar quando ele some.
Quer saber se as contas na sua carteira têm o comitê de compras mapeado, ou se estão todas dependendo de um contato só? Agende um diagnóstico gratuito. 30 minutos. Sem compromisso.